Após um dia de trabalho, e já muito perto de casa, o alerta soou na minha cabeça:
- Meu Deus, já é dia 15, o que é que vou preparar para o jantar?!
Tinha pensado não ter ninguém lá em casa, ando num corre, corre, alucinante e sem qualquer espaço mental. Mas, cruzei-me com McMurphy e o seu ar descontraído, a sua vontade de ajudar o outro, a sua determinação, o seu espírito de aventura, a sua inteligência e, porque não dizê-lo, o seu ar sedutor, levou-me a apagar as suas raízes criminosas e o convite surgiu espontaneamente. Com ele, senti que não tinha de fazer grandes cerimónias, mas sem dúvida que queria um jantar agradável. Afinal já não nos víamos desde os anos 70!
Para entrada, optei por laranja com presunto e azeite . E, sabendo que ele não passa sem uma sopinha, fiquei em pânico, não tinha tempo para ir ao supermercado, então, abri o frigorifico e a sopa saiu maravilhosa. Para grandes emergências tenho sempre em casa os ingredientes necessários para fazer uma deliciosa mousse , portanto, só tinha de me concentrar no prato principal, já que ele me disse de imediato que traria o vinho.
O coelho que tinha visto na Moura era a receita base ideal. Tanto mais que tinha dois ingredientes que lhe daria um ar gourmet: o vinho que adquiri na Enoteca de Bucelas e a Moutarde verte aux feuilles d’estragon au vinagre que a Mafalda e a Patrícia me trouxeram da Suiça.
Não preciso de vos dizer que a conversa fluiu. Falámos de tudo e de nada. Mas sobretudo, falámos do limbo que é a saúde mental, interrogámo-nos sobre quem deveria estar lá dentro e de quem, estando lá dentro, deveria estar cá fora. Falámos dos preconceitos que se geram à volta das pessoas que têm as doenças mentais e que, medicamente controladas, evitam falar ou se escondem. Falámos dos que, não sendo loucos, por alguma circunstância, são apanhados no remoinho.
Sobretudo, falámos da enorme importância dos familiares e amigos, da importância do seu apoio incondicional e sem preconceitos. Ele, à semelhança de muitos outros, por não ter conseguido sair de lá, sente-se grato para com a amiga que encontrou e a quem deu boleia e, sobretudo, pelo seu amigo índio.
Eu estou grata a Deus, por este jantar e, não podendo concordar com o que o chefe Bromden fez, tenho de concluir que o entendo.
Coelho com mostarda e compota de frutos silvestres
Ingredientes:
· 2 pernas de coelho (confesso que só tinha em casa lombinhos)
· 2 dentes de alho
· 2 dl de vinho da madeira (utilizei um selecção de vinhos gourmet do Chef Michael)
· sal e pimenta q.b.
· 2 colheres de sopa de farinha
· 1 colher de sopa de margarina
· 1 colher de sopa de azeite
· 2 colheres de sobremesa de mostarda
· 2 colheres de sopa de compota de framboesa
· 1 colher de sopa de salsa picada
Preparação:
Tempere o coelho com o sal, a pimenta, o alho, o vinho e deixe marinar por um bom par de horas.
Escorra bem o coelho e passe-o por farinha, aqueça o azeite e a margarina e aloure o coelho dos dois lados.
Junte então a marinada, descartando o alho, adicione a mostarda e deixe cozinhar em lume brando, se necessário junte um pouco de água, para que o molho nunca seque demasiado. No final retire o coelho, e junte a compota de frutos silvestres, mexa com uma colher, deixe fervilhar um pouco, junte de novo o coelho, polvilhe com salsa picada (também naõa tinha salsa!) e apague o lume.
Sirva com esparregado de nabiças e arroz de manteiga.
Nota: A Moura utilizou compota de framboesa